amanhã

acorda, pele
elástica coreografia
de espanto
pelo dia
a recobrir, em retos feixes,
o corpo

o assombro do tempo
que molda o vazio,
rabisca o porvir,
cai com todo o peso
a tatuar sinuosas interrogações
nos poros que indagam:
e agora?

agasalha-se com a fumaça do cigarro,
traga uma réstia de gole perfumado
com a boca fugidia, amortecida
pelos brados da distante noite:
história

sente o ardor do sangue no ângulo de
cada contorno:
percebeu-se esculpida horas antes
refeita e entregue à escassez de palavras
lago esplêndido de dentes, peixes, dedos, promessas
memória

suas cores não mais lhe pertencem;
viu-se recoberta indelevelmente
pelo rastro do outro
a ausência imposta em sentença
para se refazer desejo
possível
passível
plausível

o sabor da carne
explode
na falta.

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bola de cabelo

Ela saltou na direção dos trilhos do metrô com a leveza de uma pluma despretensiosa. Mal se importava com a opinião dos outros; provavelmente poucos haviam reparado em seu movimento plataforma abaixo. O próximo trem ainda não rugia túnel adentro, o que lhe regalaria mais alguns segundos de integridade.

Redonda, composta por fios de diferentes origens, pululou sapeca nos trilhos. Havia vento, um sopro frio naquele inverno tardio da cidade. Pensei estar curado da miopia ao reparar, com tantos detalhes, aquele novelo comunal, socialista, colaborativo, multirracial, multigênero e livre.

Não era uma bolinha qualquer de fios de cabelo. Havia de tudo: raízes loiras em degradê escuro; um cacho ruivo; resquícios tristes de um black power cansado da noite anterior; tímidas penugens de um calvo perdido na calçada; o teto branco, quase prata, da aposentada que não podia mais se pintar; a lisa mecha castanha da pequenina relutante para entrar na escola.

Inevitável, no ócio da espera, elucubrar as origens de todos aqueles irmanados filetes, unidos e cegos rumo à eletrocução e o atropelo. Algum, extraído da violência, uniu-se a outro abandonado no chão do barbeiro. E, após um empurrão de vento, encontraram-se com os restos de outros refugos de pentes para, então, embrenharem-se aos demais calçada afora.

Soltos e entregues à corrente de ar, desceram ao subterrâneo e, na inóspita escuridão – sem olhar para ninguém, repousam no reluzir metálico dos trilhos à espera, ainda que inconsciente, da colisão que os desintegrará, fragmentando seus destinos em pedaços múltiplos de histórias, volantes, flanantes, silenciosas.

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Blecaute

Digamos que minha vida começou sob as luvas espessas destes homens fantasiados em macacões acolchoados e fluorescentes. Instrumentos à mão, ligaram meus fios, extensões e placas até que, num rompante, fiat lux.

Meus primeiros momentos de consciência me fizeram avistar justamente estes eletricistas mal-humorados. Pela conversa, ficou evidente que não desejavam estar ali e ansiavam por sumir o quanto antes daquele tédio monumental. Talvez isso justificasse algumas das gambiarras a estalarem esporadicamente minhas vísceras elétricas.

Nasci pendurado a um poste. Para a maioria, uma posição de tortura; no meu caso, condição de vida. Quando era tudo escuro ao redor, percebi o dom que me trouxera ao mundo: iluminar!

Porém, não se tratava de uma tarefa contemplativa. Ação é palavra de ordem em meu modus vivendi e, por isso mesmo, destaco-me em relação aos meus parentes. Como uma bênção, carrego a trindade no âmago da existência e, junto a ela, uma enorme responsabilidade. O que diverte meu espírito, de certa forma, já que todos parecem me obedecer desde sempre: pare, atenção, siga.

A primeira luz que joguei sobre o asfalto molhado era verde, ou seja, não fiz diferença alguma para aqueles seres lépidos a trafegar em solene indiferença debaixo de minhas barbas. Surpreendentemente, senti um clique nas entranhas e passei a vomitar uma luz amarela e, num outro soluço, banhei as redondezas com um escarlate bastante vivo. Foi aí que percebi uma mudança no movimento daqueles veículos (logo aprendi o nome). Verde? Invisível. O amarelo, embora fugaz, era como um enorme monstro que se erguia diante dos robôs velozes, os quais – afora os delinquentes – reduziam paulatinamente a velocidade até se prostrarem resignados diante da vermelhidão suprema e ácida de meu humor. Eu era um pequeno ditador!

Ao descobrir uma luz muito mais poderosa, cuja fonte concluí posteriormente se chamar Sol, notei que ela, em nada, afetava minha posição. Inclusive meus ditames eram mais respeitados durante o dia. Durante este período, alguns se aglomeravam logo abaixo e faziam coisas estranhas: uns entregavam água a seres dentro dos carros; outros cuspiam fogo sem motivo aparente, enquanto havia também os encarregados de jogar um rodo e puxar o vidro frontal dos passantes. Nem todos gostavam.

Minha importância era crescente: regulava o trânsito, reunia pessoas, iluminava a rua durante a noite e ainda tinha a chance de testemunhar acontecimentos variados. Certa vez, um carro preto, rápido como um foguete, desobedeceu minha luz vermelha e arrebentou-se, todo retorcido, em um caminhão que passava sob mim, mas em sentido perpendicular. O terror estampado no rosto das pessoas fez-me deduzir de que não era boa ideia contrariar recomendações. Quem avisa, amigo é.

Já vi também quem permanecesse parado mesmo após a desejada luz verde. Era uma menina. Chorava compulsivamente ao volante. O corpo tremia de soluços e desespero. Dava vontade de ajudar, de piscar-me todo, randômico, para distrair sua atenção.

Sem contar as brecadas repentinas, seguidas de engavetamentos inevitáveis e as consequentes brigas. Os escândalos sempre ficavam a cargo dos homens, de acordo com o que pude observar.

Mas era uma cidade relativamente calma, cujos perigos resultavam do fortuito ou de má sorte exacerbada. Não gostava mesmo de chuva, algo aparentemente sem sentido algum: para que caírem gotas de água sabe-se lá de onde? Era curioso: as pessoas corriam desembestadas, os carros espirravam gotas para todos os lados e eu mudava o comportamento. As três luzes davam lugar a um amarelo piscante – ou seja, chover era sinônimo de um soluço intermitente, o qual apenas depois desvendei ser uma doença do sistema, não minha. Uma culpa a menos. Bastava aparecerem os homens de macacão e eu voltava à velha forma.

Havia, porém, momentos em que me contentava com soluços: os festejos na cidade! Enquanto todos amassavam-se na avenida atrás dos trios elétricos ou mesmo disputavam um lugar nos camarotes, quem tinha uma visão privilegiada era eu. Eram beijos estalados, enovelados, abraços escorregadios, mãos espertamente bobas, olhares perdidos, serpentinas rosas, amarelas, verdes e vermelhas a flanar em contraste com o azul do céu, um tempo que soava mais lento se comparado ao restante do ano. Fantasias, trombones espevitados, adolescentes a descobrir o que havia do lado de lá das crenças; crianças a correr sem freio por todas as direções; garrafas, copos e pratos desmaiados à espera do resgate ao amanhecer.

Comemorações outras também ocupavam a rua: marchas de trabalhadores enrubescidos atrás de um aumento; senhoras atrás de aposentadoria mais digna; pessoas de todos os gêneros listáveis; católicos, evangélicos, descrentes e empresários. Todos juntos, no mesmo sentido, à procura de sentido.

Conforme o tempo se desenrolava, percebia certa mudança na paisagem ao redor. Prédios vinham à luz, casas eram esmigalhadas por imensas bolas de ferro e muito mais carros, ônibus e motos endiabradas desafiavam minha agilidade e, não raro, minhas regras.

O problema é que, não faz muitos dias, passou algo esquisito: resolveram instalar um outro de mim justamente ao meu lado! Logo pensei ser um trote: para que dois a fazer a mesmíssima tarefa que um já cumpre de maneira tão honrosa? Confesso ter sabotado a mim mesmo nos primeiros dias. Solucei de propósito, pisquei de forma deliberada para ver se me era prestada alguma satisfação: nada. Enquanto isso, meu semelhante permanecia desligado, inoperante, inútil. Silêncio.

Esperaram uma madrugada, talvez para me pegarem de surpresa, e ativaram meu vizinho. E, espantado, percebi que ele imitava meus movimentos – todos! Mesmo quando tentei profanar minha própria ordem, o tal seguia com irrepreensível sincronia, sem pestanejar ou falhar. As luzes dele parecem mais vivas, é verdade, mas isso não explica o fato de, após alguns dias, não conseguir trabalhar como antes.

O soluço não passa; minha vida é um imenso feixe irregular, amarelo e insosso. Enquanto isso, meu parceiro reluz, à máxima potência, para seus súditos obedientes. Quem dá por minha falta? Só porque não sou de LED? Perdi a batalha na marcha da meritocracia?

Acho que são os homens de macacão ali.
Blecaute.

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Tempos

O casal estava muito bem centralizado na foto. Lâmpadas emolduravam a cena com luz quente, enquanto a decoração florida, meio impressionista, contentava os que poderiam enxergar o ocorrido com a devida distância. A fotógrafa, certeira na captação do instante decisivo – ainda mais quando se trata de casamento -, não repetiu tamanha precisão nos demais registros do convescote matrimonial. Era um beijo jovial, sem a artificialidade das poses. Ela à esquerda, de vestido branco, simples; ele à direita, de colete prateado e colarinho branco. Os padrinhos sorriam – pareciam casais simétricos na roupa e no deslumbramento, à exceção de dois moços, que pareciam recentemente apresentados e já intercambiavam certo fulgor nos olhares trocados. Chumbo pesado. Bonita foto. Não era nítido o rosto do sacerdote.

Márcia estava indignada como nunca. Contava, pesarosa, sobre como havia perdido por completo a esperança nos políticos. Gastou infindáveis linhas para relatar seu orgulho em bater panelas na sacada enquanto “a corja não saísse de lá”. Maldisse a colonização, exaltou as nações “civilizadas” e cogitou com imensa sinceridade a aquisição de um módico terreno na Flórida. Melhor fugir que remediar, deve ter pensado. A imensa roda de conversa, no entanto, transformou-se em pancadaria verbal, naturalmente. Anda silenciosa, a Márcia, nestes últimos dias.

As férias de Roberto, enquanto isso, andam para lá de satisfatórias. Sua câmera é de uma potência inestimável. São crepúsculos, pontes, comidas, pessoas, prédios, casas, ruas, rios e aviões registrados com sensibilidade rara entre homens de sua estirpe. Sua esposa não aparece nas fotos.

Mas Larissa está envolvida até o pescoço com o ativismo feminino. Andou incomodando certos chefões no escritório e, agora, bate cartão na avenida Paulista para reclamar os direitos. A luta até apagou um pouco a dor pela partida de Paulo, esse rapaz vil que a deixou em um ponto de ônibus, sem dinheiro, por conta de uma crise de ciúme. Ninguém mais conhece essa história de cabo a rabo. Que brigue pelos direitos: faz muito bem.

Carlão, em êxtase após a vitória do Corinthians de virada no último minuto, não resistiu e procurou o bordel mais próximo para celebrar tamanho sofrimento. O problema é que encontrou o sogro no mesmo estabelecimento. Sem saber direito como reagir, o velho recebeu a surpresa com um abraço. Parecia um anfitrião.

Escolher citações nunca foi o talento de Maíra. Acho que a Clarice não escreveu, tampouco disse aquela frase sobre abelhas, coletividade e criação divina. Relacionar tudo isso com empreendedorismo deve ter revirado a alma da ucraniana.

Muito embora todas as intempéries da vida cotidiana ardam feito sal sobre lesma, elas parecem se dissolver, caramelizadas, na magia dos fogos de artifício que eclodem na Disney. É a primeira vez que Cecília testemunha algo tão aterrador em seus breves cinco anos de idade. Certamente seus pais deveriam, naquele instante, degustar imensas coxas de peru a ponto de quase perderem a garota de vista. Sua pequena irmã, Dora, chorava aos soluços com aquelas luzes no céu. Mesmo sem falar, deve ter associado as fagulhas aos bombardeios no Oriente Médio, às noites do Rio de Janeiro ou qualquer guerra que o valha. Será socióloga no futuro, dizem. Deve assistir menos à TV.

A família de José Paulo é perfeita, sem sobra de dúvida. Todos fotogênicos, bem sucedidos, sorridentes – dinheiro não é problema. Nem uma indigestão, por mais leve que seja, os acomete depois de um farto almoço de domingo na churrascaria.

Para a tristeza de Rodrigo, trata-se de um fim de semana chuvoso, nebuloso e incerto. Às voltas com o vestibular, lamenta pelas fórmulas de matemática impossíveis de serem decoradas. Seu pai recomendou-lhe ser advogado, mas isso não combina muito com seus ideais. A leitura do “Manifesto Comunista”, seguida de “Utopia”, soprou-lhe algo mais intenso que a testosterona na qual seus amigos têm nadado compulsivamente. Vê-se em um labirinto, ouve as mais tristes de Caetano e evita olhar pela janela do vigésimo andar.

Parece que Mário arranjou uma namorada. Poderia, ao menos, expor a novidade com mais orgulho ou empolgação, segundo alguns colegas. Tudo que conta é repleto de vieses, obtusidade, sombras e contornos. Outros concordam: felicidade à vista dos outros é felicidade perdida.

Essa é da Clarice?
Desligo o computador. Tarde demais.

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Beni

É enganoso o céu azul na Roma de outono para aqueles que fazem a previsão do tempo de janela fechada. Maldisse o mundo e Deus antes de tomar o caminho para o Vaticano. Segundo o aplicativo, não levaria mais de vinte minutos para chegar à visita guiada, cuja hora já estava marcada. Desconhecia o rigor dos católicos com horários e, de alguma forma, isso fazia germinar a fagulha de ansiedade que pretendia afogar durante as férias. Não se faz isso com um paulistano. Acordei tarde, mal comi e, atabalhoado como de costume, bati a porta sem olhar para trás – ainda bem que não esqueci a chave dentro do apartamento.

O bairro de Trastevere, embora perto das principais atrações turísticas da cidade, consegue ser uma ilha de paz e boemia ao mesmo tempo. Talvez essa percepção derive da rua em que me hospedei, mas de todo modo os semblantes e a organização urbanística não denotavam um lugar tão turístico e abarrotado de pessoas quanto as localidades a poucos quilômetros dali.

Apertei o passo rumo ao rio Tibre para depois seguir sua margem na contramão até uma praça que me levaria à rua cujo fim se dá na famosa Praça de São Pedro. O vento também seguia o contrafluxo e, naquela hora da manhã, era frio o suficiente para me cortar o rosto. Degustei o sabor da pressa em uma cidade cujo caos não remete ao desespero por fazer negócios – mas a uma corrida por esgotar a história, as atrações, paisagens, comidas, bebidas, monumentos e pessoas ali disponíveis. A ausência de regras, sobretudo no trânsito, gera uma auto-organização que flerta docemente com a completa desordem. Este limiar tempera a cidade.

Mesmo caminhando rápido, tentei olhar para os lados e entender um pouco das coisas que conseguia ver. Sorveterias, pés-sujos em que o proletariado local fazia a primeira refeição, muros pichados, calçada de pedra, uma ruína aqui e outra ali. Concentrado em cumprir o percurso a tempo, fui surpreendido por uma senhora que, à porta de uma pequena loja, chamou minha atenção sem pestanejar:

– Beni!

Olhei para trás sem perder o ritmo, enquanto a italiana, cujo rosto denunciava mais de setenta anos, ficava distante. Mesmo assim, passei o tempo todo pensando se eu fosse mesmo o tal Beni. Seria um neto? Um parente perdido? Um amor de infância renascido em minha pele? Um devedor que tomara um chá de sumiço? Um vizinho simpático que causou estranhamento ao andar tão rapidamente?

Se fosse Beni, tudo seria mais fácil?

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Elas não falam

José nem bateu à porta naquele dia. Foi direto para a cozinha e surgiu em meio ao vapor branco do espaguete para surpreender Marisa. Já são muitas décadas para ela perceber um gesto desses de bate-pronto. Ele insistiu até que a esposa desse a atenção requerida pelo solene momento. Impaciente, deixou a colher de pau submergir na panela até o som das borbulhas se tornar menos relevante que o sorriso quase esquecido do seu homem.

Do outro lado da cidade, Rubens fazia o mesmo agrado a Carlos para arrancar o tímido abraço de sempre; Cinira apressou-se para não deixar o regalo passar do tempo; Marquinhos ofereceu à mãe; Helena, ao esticar os braços, quebrou as pernas de Henrique, cuja voz armada já tomava impulso para saber o porquê da chegada tardia.

Roberto levou consigo para o aeroporto, de onde faz as despedidas costumeiras da cidade. A turista alemã, na rodoviária, buscava o ônibus para descer a serra enquanto lutava contra a imensa mochila às costas. Vivian esqueceu no banco de trás do táxi e arrependeu-se profundamente: tinha planos, assim como Renata – mas ela esbravejou por não ter levado uma a mais. Luciano, sozinho, divertia-se com suas lembranças ao ver o tempo passar rápido pelo túnel de cimento. Com aquilo na mão, Janice era, de fato, a última bolacha do pacote no povaréu da estação Vila Matilde.

Confesso não ter checado a veracidade da notícia, embora a prática do jornalismo em alguns cantos atenue minha penitência. Mesmo assim, fatos como esse acrescentam uma pitada de sonho à correnteza entediante da rotina. Dizem que foi no metrô de São Paulo: um homem comprou todas as rosas (ou flores, mas rosas são mais bonitas) de um ambulante para distribui-las por entre os cidadãos enlatados no vagão. Dá para imaginar a surpresa dos solteiros desistentes; a resistência dos burocratas engravatados; o sorriso banguela da criança; o senhor no banco dos idosos – espero que alguém tenha respeitado o seu direito – a ver um suspiro de cortesia diante da indiferença massiva dos celulares. Não sei quem fez a distribuição dos presentes – o vendedor, o comprador, ou se ambos dividiram a tarefa de quebrar o gelo personificado por cada um dos paulistanos ali ausentes.

Admitindo ou não, saíram dali com uma lufada de paixão. Não pensaram automaticamente em apostar corrida com os demais rumo à escada rolante; deixaram de lado as ombradas violentas e o jogo de corpo para se livrar da estação. Devem ter protegido as pétalas como a um filho.

Provavelmente eu estava encarcerado no trânsito, desfrutando do ar condicionado e uma música furtiva no banco de trás do carro alheio – embora pudesse solicitar uma canção diferente, se quisesse. Havia balas e água. Perdi a chance de observar todos aqueles olhos brilhando por um motivo que não uma tela repleta de joguinhos, pequenos golpes e notícias inúteis. Talvez não saberia o que fazer com o botão de rosa: seria um belo ensejo para retomar contato ou ao menos encheria um vaso para conservá-lo até que se lembrasse de mim. Mas ela não gosta de flores e, faz um tempo, seu amor murchou.

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A dança das sombras

Mordeu o primeiro pedaço da maçã como se fosse permanecer por mais um instante. Não havia naquele gesto um pingo de solenidade ou deferência a um suposto amargor – algo comum em despedidas. Precisava matar a fome e sair. Pegou a mochila de couro ressecado e alças quase descosturadas do restante da peça.

Acomodou o peso nas costas para, brevemente, olhar para trás. Tímido, inclinou a cabeça adiante, embora mantivesse o cuidado de não se arrepender.
Sentiu a gravidade sobre o corpo vir simultânea assim que descortinou as pálpebras inchadas. Despertar dói – e fere ainda mais quando sucede o rasgar de uma ferida imprevisível, enorme. O cansaço misturava-se aos cacos de memória que teciam o formigar da mente. O peito, comprimido pela angústia, fazia-se sentir um hiato vermelho e brilhoso. Carne viva.

Seu desejo imediato era não ter história alguma para contar, como um cinema antigo em chamas prestes a perder o acervo. Entre o breu e a vigília, experimentou um vapor diferente das empreitadas noturnas às quais se havia dedicado nos últimos cinco meses. Percebeu-se toda, da boca seca aos dedos à margem da cãibra. Pensou ser mais fácil permanecer imóvel, cessar a correnteza, sem lembrar nem seguir.

Ao redor, um denso silêncio dimensionava a crueldade do ato. Arranjou um passatempo compatível com a inércia. Percebeu um sem número de sombras no quarto: objetos, feixes intrusos pelo vão da persiana de madeira, um ventilador enferrujado, a cômoda abarrotada de peças, a penteadeira translúcida: matérias-primas incríveis para projetar formas obscuras por todas as partes. Viu graça em analisar os contornos estranhos de existências com data de validade, uma vez que teria, sabe-se lá quando, de levantar. Todavia, enquanto o tranco das obrigações não lhe impulsionava para fora dali, brincou. Deixou aberto apenas um dos olhos e, com o indicador da mão direita, esculpiu uma das sombras eleitas. Era nuvem, depois um corpo de uma senhora baixa e gorda para, mais tarde, converter-se em um rosto quadrado de homem. Sorriu.

Sem menção de erguer o tronco, espreguiçou e logo sentiu uma ausência pontiaguda na profundidade da inspiração. Vulnerável, apertou os olhos para perceber um filete tênue entre a libertação e o cárcere. Não poderia haver inimigo mais cruel que a própria imaginação. Mesmo em vigília, um pesadelo espesso sobrepunha-se à realidade para distorcer cores, cantos, cômodos, tudo à volta. À materialidade das coisas, misturava-se uma recriação espiralada de belas histórias jamais ocorridas. Não se via capaz, entretanto, de deter o fluxo de loucura que já invadia suas comportas no simples anunciar da manhã. Seu cérebro, de forma aparentemente irreversível, estava embebido e submerso em um sem-número de reminiscências repetidas e fragmentadas. Presa ao mundo.

A mochila puída de José, de tão carcomida, parecia malhada se observada de longe, alternando pontos mais e menos escuros de um cinza poluído pela cidade. Na ânsia de partir, acumulou todos os pertences apenas no maior dos dois compartimentos. A pressa para deixar o lugar fez com que aglutinasse as coisas feito um balaio de misturas: dois livros, uma escova de dentes esgarçada, uma foto 3×4 que não era sua, um pacote de biscoitos e bolos de roupas.
Sentia o corpo inteiro ressecado. Ato contínuo, foi à cozinha e pegou o primeiro copo americano que viu para, em seguida, decepcionar-se com a falta d’água. Não muito afeito a contrariedades, percebeu os músculos do braço retesarem-se para arremessar o objeto na parede oposta, mas fora vencido por um repentino e imenso cansaço que lhe causou um instantâneo nocaute: tudo havia começado justamente por conta daquilo. A água, sua escassez e a complexidade do simples ato do querer sem poder.

Ele e Susana não fizeram questão de cumprimentarem-se na primeira vez. Eram amigos em comum cindidos por uma calorosa discussão a respeito do governador. Das sete pessoas, quatro eram veementes contra suas atitudes. Outros dois pareciam alheios e havia dois extremistas – justo ambos.
Inflamados e já sem lembrar os nomes um do outro, queriam somente devorar o ponto de vista contrário. Enumeravam causas, ouviam o argumento alheio feito linces sedentos por proferir a resposta. Os olhos dela eram enormes, verdes, ainda mais coloridos pelos arroubos de opinião que, não raro, lhe tomavam. As garrafas carameladas de cerveja acumulavam-se na mesa de lata a tal ponto que já havia algumas logo abaixo, na calçada.

Vomitaram mutuamente autores e outras referências até não suportarem mais. Suas vozes, as mais altas da rua atrás da igreja e os botecos vizinhos já espantavam as pessoas para não serem pegos pela lei do silêncio. Não tardou até os garçons repetirem o pedido e o eco produzido pelo fervoroso debate deu lugar a uma imensa orfandade. Todos se despediram. Alguns juntos, outros correndo para o primeiro táxi à espreita enquanto José e Susana viram-se sozinhos.
Vestido florido, pano com um laço no cabelo, batom vermelho, óculos de aros grandes e armação num bege quase branco, mechas em diferentes tons de loiro, estatura média, ombros não mais largos que o quadril, magra, braços que findavam em dedos longos, cujo esmalte negro contrastava com o florir dos sapatos de bico arredondado. Bailarina.

Camisa branca de mangas curtas com pequenas bicicletas estampadas em amarelo, azul, verde e vermelho. Bermuda lavada de jeans, tênis pretos, meias marrons esticadas canela acima, barba por fazer e cuidar, cabelos recém-raspados: culpa do pai. Sociólogo.

– Vai embora como? – ela perguntou enquanto acendia o quinto cigarro da noite.
– Táxi.
– Pegamos pesado…
– Não se preocupe. As pessoas morrem de medo disso.
– De discutir?
– Também. O pior, mesmo, é enfrentar seus olhos.
– Piegas. Para onde vai?

Ela morava na fronteira Praça da Árvore/Saúde, com ruas que não se encontram e topografia imprevisível após a próxima esquina. Pediram um carro preto no aplicativo, modernidade pouco frequente no repertório de José. Nem poderia fazer isso, dado o estilhaço pós-moderno encravado na tela do telefone celular. Sentados nas extremidades do banco de trás, planejaram lidar com a timidez em silêncio até chegarem ao bairro em que moravam. Ela desembarcaria antes e, ao pedir que o motorista encostasse no meio-fio, olhou para o oponente.

O elevador de madeira rangia à medida que escalava os andares. O espelho, manchado de bolor em algumas partes, refletia um beijo ensandecido, espalmado no desespero de mãos que tateavam nas carnes compartidas o uníssono de um porvir imaterial e que nunca chegaria. A fricção, os relevos, os breves sufocares, as unhas, a porta que bateu contra a parede, a falta de cerimônia para se renderem à cama desarrumada, o perfume dos vinis desarrumados, as visões furtivas do teto, o embate indizível das raivas, a política intensa fundida em arguições selvagens, o amplo e quase infinito suspirar pleno do delírio simultâneo, sucedido por uma separação alongada, vencida.

Susana rapidamente adormeceu, cansada da semana de ensaios incessantes para o espetáculo que em breve a tiraria do continente por dois meses. Paralela ao colchão, abandonou um dos braços ao lado do corpo, enquanto o outro apegava-se a uma das várias almofadas coloridas em que se refugiava. José mergulhou em insônia e passou a perambular pelos corredores do apartamento de pé-direito alto. Visitou o banheiro, explorou os armários da cozinha, roubou parte de um tablete de chocolate, contemplou a cidade na varanda repleta de plantas espinhosas e achou morada no grande sofá de couro que namorava a estante de livros.

Já acomodado, ele fixava o olhar no único quadro pregado há anos naquela sala. Era um retrato de Robert Frank no qual uma criança nova-iorquina corria atrás da mãe em uma calçada vazia de domingo. Observou o quarto e atentou à própria exaustão. Não havia mais argumentos, contradições, quereres, nada. Um mosaico espalhava-se no chão de tacos. Via-se sem energia para encontrar sentido em um ou todos os pedaços. Estava destituído da própria existência, por tanto tempo – quanto? – devotada à corda recém-arrebentada.

Recordava apenas a primeira noite ao atolar a mochila destroçada com fragmentos de um passado aturdido por um ruído agudo de desvario. Com a maçã pela metade, bateu a porta. Susana despertou, assustada. E percebeu que, anos depois, suas inseparáveis companhias voltariam a lhe bulir nas manhãs: sombras.
Sobrou uma carta, caída da mochila, à beira da porta: nunca aberta.

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