Blecaute

Digamos que minha vida começou sob as luvas espessas destes homens fantasiados em macacões acolchoados e fluorescentes. Instrumentos à mão, ligaram meus fios, extensões e placas até que, num rompante, fiat lux.

Meus primeiros momentos de consciência me fizeram avistar justamente estes eletricistas mal-humorados. Pela conversa, ficou evidente que não desejavam estar ali e ansiavam por sumir o quanto antes daquele tédio monumental. Talvez isso justificasse algumas das gambiarras a estalarem esporadicamente minhas vísceras elétricas.

Nasci pendurado a um poste. Para a maioria, uma posição de tortura; no meu caso, condição de vida. Quando era tudo escuro ao redor, percebi o dom que me trouxera ao mundo: iluminar!

Porém, não se tratava de uma tarefa contemplativa. Ação é palavra de ordem em meu modus vivendi e, por isso mesmo, destaco-me em relação aos meus parentes. Como uma bênção, carrego a trindade no âmago da existência e, junto a ela, uma enorme responsabilidade. O que diverte meu espírito, de certa forma, já que todos parecem me obedecer desde sempre: pare, atenção, siga.

A primeira luz que joguei sobre o asfalto molhado era verde, ou seja, não fiz diferença alguma para aqueles seres lépidos a trafegar em solene indiferença debaixo de minhas barbas. Surpreendentemente, senti um clique nas entranhas e passei a vomitar uma luz amarela e, num outro soluço, banhei as redondezas com um escarlate bastante vivo. Foi aí que percebi uma mudança no movimento daqueles veículos (logo aprendi o nome). Verde? Invisível. O amarelo, embora fugaz, era como um enorme monstro que se erguia diante dos robôs velozes, os quais – afora os delinquentes – reduziam paulatinamente a velocidade até se prostrarem resignados diante da vermelhidão suprema e ácida de meu humor. Eu era um pequeno ditador!

Ao descobrir uma luz muito mais poderosa, cuja fonte concluí posteriormente se chamar Sol, notei que ela, em nada, afetava minha posição. Inclusive meus ditames eram mais respeitados durante o dia. Durante este período, alguns se aglomeravam logo abaixo e faziam coisas estranhas: uns entregavam água a seres dentro dos carros; outros cuspiam fogo sem motivo aparente, enquanto havia também os encarregados de jogar um rodo e puxar o vidro frontal dos passantes. Nem todos gostavam.

Minha importância era crescente: regulava o trânsito, reunia pessoas, iluminava a rua durante a noite e ainda tinha a chance de testemunhar acontecimentos variados. Certa vez, um carro preto, rápido como um foguete, desobedeceu minha luz vermelha e arrebentou-se, todo retorcido, em um caminhão que passava sob mim, mas em sentido perpendicular. O terror estampado no rosto das pessoas fez-me deduzir de que não era boa ideia contrariar recomendações. Quem avisa, amigo é.

Já vi também quem permanecesse parado mesmo após a desejada luz verde. Era uma menina. Chorava compulsivamente ao volante. O corpo tremia de soluços e desespero. Dava vontade de ajudar, de piscar-me todo, randômico, para distrair sua atenção.

Sem contar as brecadas repentinas, seguidas de engavetamentos inevitáveis e as consequentes brigas. Os escândalos sempre ficavam a cargo dos homens, de acordo com o que pude observar.

Mas era uma cidade relativamente calma, cujos perigos resultavam do fortuito ou de má sorte exacerbada. Não gostava mesmo de chuva, algo aparentemente sem sentido algum: para que caírem gotas de água sabe-se lá de onde? Era curioso: as pessoas corriam desembestadas, os carros espirravam gotas para todos os lados e eu mudava o comportamento. As três luzes davam lugar a um amarelo piscante – ou seja, chover era sinônimo de um soluço intermitente, o qual apenas depois desvendei ser uma doença do sistema, não minha. Uma culpa a menos. Bastava aparecerem os homens de macacão e eu voltava à velha forma.

Havia, porém, momentos em que me contentava com soluços: os festejos na cidade! Enquanto todos amassavam-se na avenida atrás dos trios elétricos ou mesmo disputavam um lugar nos camarotes, quem tinha uma visão privilegiada era eu. Eram beijos estalados, enovelados, abraços escorregadios, mãos espertamente bobas, olhares perdidos, serpentinas rosas, amarelas, verdes e vermelhas a flanar em contraste com o azul do céu, um tempo que soava mais lento se comparado ao restante do ano. Fantasias, trombones espevitados, adolescentes a descobrir o que havia do lado de lá das crenças; crianças a correr sem freio por todas as direções; garrafas, copos e pratos desmaiados à espera do resgate ao amanhecer.

Comemorações outras também ocupavam a rua: marchas de trabalhadores enrubescidos atrás de um aumento; senhoras atrás de aposentadoria mais digna; pessoas de todos os gêneros listáveis; católicos, evangélicos, descrentes e empresários. Todos juntos, no mesmo sentido, à procura de sentido.

Conforme o tempo se desenrolava, percebia certa mudança na paisagem ao redor. Prédios vinham à luz, casas eram esmigalhadas por imensas bolas de ferro e muito mais carros, ônibus e motos endiabradas desafiavam minha agilidade e, não raro, minhas regras.

O problema é que, não faz muitos dias, passou algo esquisito: resolveram instalar um outro de mim justamente ao meu lado! Logo pensei ser um trote: para que dois a fazer a mesmíssima tarefa que um já cumpre de maneira tão honrosa? Confesso ter sabotado a mim mesmo nos primeiros dias. Solucei de propósito, pisquei de forma deliberada para ver se me era prestada alguma satisfação: nada. Enquanto isso, meu semelhante permanecia desligado, inoperante, inútil. Silêncio.

Esperaram uma madrugada, talvez para me pegarem de surpresa, e ativaram meu vizinho. E, espantado, percebi que ele imitava meus movimentos – todos! Mesmo quando tentei profanar minha própria ordem, o tal seguia com irrepreensível sincronia, sem pestanejar ou falhar. As luzes dele parecem mais vivas, é verdade, mas isso não explica o fato de, após alguns dias, não conseguir trabalhar como antes.

O soluço não passa; minha vida é um imenso feixe irregular, amarelo e insosso. Enquanto isso, meu parceiro reluz, à máxima potência, para seus súditos obedientes. Quem dá por minha falta? Só porque não sou de LED? Perdi a batalha na marcha da meritocracia?

Acho que são os homens de macacão ali.
Blecaute.

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Sobre Rodolfo Araújo

Jornalista, amante do teatro, um (des)crente (in)constante.
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