Tempos

O casal estava muito bem centralizado na foto. Lâmpadas emolduravam a cena com luz quente, enquanto a decoração florida, meio impressionista, contentava os que poderiam enxergar o ocorrido com a devida distância. A fotógrafa, certeira na captação do instante decisivo – ainda mais quando se trata de casamento -, não repetiu tamanha precisão nos demais registros do convescote matrimonial. Era um beijo jovial, sem a artificialidade das poses. Ela à esquerda, de vestido branco, simples; ele à direita, de colete prateado e colarinho branco. Os padrinhos sorriam – pareciam casais simétricos na roupa e no deslumbramento, à exceção de dois moços, que pareciam recentemente apresentados e já intercambiavam certo fulgor nos olhares trocados. Chumbo pesado. Bonita foto. Não era nítido o rosto do sacerdote.

Márcia estava indignada como nunca. Contava, pesarosa, sobre como havia perdido por completo a esperança nos políticos. Gastou infindáveis linhas para relatar seu orgulho em bater panelas na sacada enquanto “a corja não saísse de lá”. Maldisse a colonização, exaltou as nações “civilizadas” e cogitou com imensa sinceridade a aquisição de um módico terreno na Flórida. Melhor fugir que remediar, deve ter pensado. A imensa roda de conversa, no entanto, transformou-se em pancadaria verbal, naturalmente. Anda silenciosa, a Márcia, nestes últimos dias.

As férias de Roberto, enquanto isso, andam para lá de satisfatórias. Sua câmera é de uma potência inestimável. São crepúsculos, pontes, comidas, pessoas, prédios, casas, ruas, rios e aviões registrados com sensibilidade rara entre homens de sua estirpe. Sua esposa não aparece nas fotos.

Mas Larissa está envolvida até o pescoço com o ativismo feminino. Andou incomodando certos chefões no escritório e, agora, bate cartão na avenida Paulista para reclamar os direitos. A luta até apagou um pouco a dor pela partida de Paulo, esse rapaz vil que a deixou em um ponto de ônibus, sem dinheiro, por conta de uma crise de ciúme. Ninguém mais conhece essa história de cabo a rabo. Que brigue pelos direitos: faz muito bem.

Carlão, em êxtase após a vitória do Corinthians de virada no último minuto, não resistiu e procurou o bordel mais próximo para celebrar tamanho sofrimento. O problema é que encontrou o sogro no mesmo estabelecimento. Sem saber direito como reagir, o velho recebeu a surpresa com um abraço. Parecia um anfitrião.

Escolher citações nunca foi o talento de Maíra. Acho que a Clarice não escreveu, tampouco disse aquela frase sobre abelhas, coletividade e criação divina. Relacionar tudo isso com empreendedorismo deve ter revirado a alma da ucraniana.

Muito embora todas as intempéries da vida cotidiana ardam feito sal sobre lesma, elas parecem se dissolver, caramelizadas, na magia dos fogos de artifício que eclodem na Disney. É a primeira vez que Cecília testemunha algo tão aterrador em seus breves cinco anos de idade. Certamente seus pais deveriam, naquele instante, degustar imensas coxas de peru a ponto de quase perderem a garota de vista. Sua pequena irmã, Dora, chorava aos soluços com aquelas luzes no céu. Mesmo sem falar, deve ter associado as fagulhas aos bombardeios no Oriente Médio, às noites do Rio de Janeiro ou qualquer guerra que o valha. Será socióloga no futuro, dizem. Deve assistir menos à TV.

A família de José Paulo é perfeita, sem sobra de dúvida. Todos fotogênicos, bem sucedidos, sorridentes – dinheiro não é problema. Nem uma indigestão, por mais leve que seja, os acomete depois de um farto almoço de domingo na churrascaria.

Para a tristeza de Rodrigo, trata-se de um fim de semana chuvoso, nebuloso e incerto. Às voltas com o vestibular, lamenta pelas fórmulas de matemática impossíveis de serem decoradas. Seu pai recomendou-lhe ser advogado, mas isso não combina muito com seus ideais. A leitura do “Manifesto Comunista”, seguida de “Utopia”, soprou-lhe algo mais intenso que a testosterona na qual seus amigos têm nadado compulsivamente. Vê-se em um labirinto, ouve as mais tristes de Caetano e evita olhar pela janela do vigésimo andar.

Parece que Mário arranjou uma namorada. Poderia, ao menos, expor a novidade com mais orgulho ou empolgação, segundo alguns colegas. Tudo que conta é repleto de vieses, obtusidade, sombras e contornos. Outros concordam: felicidade à vista dos outros é felicidade perdida.

Essa é da Clarice?
Desligo o computador. Tarde demais.

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Sobre Rodolfo Araújo

Jornalista, amante do teatro, um (des)crente (in)constante.
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