A dança das sombras

Mordeu o primeiro pedaço da maçã como se fosse permanecer por mais um instante. Não havia naquele gesto um pingo de solenidade ou deferência a um suposto amargor – algo comum em despedidas. Precisava matar a fome e sair. Pegou a mochila de couro ressecado e alças quase descosturadas do restante da peça.

Acomodou o peso nas costas para, brevemente, olhar para trás. Tímido, inclinou a cabeça adiante, embora mantivesse o cuidado de não se arrepender.
Sentiu a gravidade sobre o corpo vir simultânea assim que descortinou as pálpebras inchadas. Despertar dói – e fere ainda mais quando sucede o rasgar de uma ferida imprevisível, enorme. O cansaço misturava-se aos cacos de memória que teciam o formigar da mente. O peito, comprimido pela angústia, fazia-se sentir um hiato vermelho e brilhoso. Carne viva.

Seu desejo imediato era não ter história alguma para contar, como um cinema antigo em chamas prestes a perder o acervo. Entre o breu e a vigília, experimentou um vapor diferente das empreitadas noturnas às quais se havia dedicado nos últimos cinco meses. Percebeu-se toda, da boca seca aos dedos à margem da cãibra. Pensou ser mais fácil permanecer imóvel, cessar a correnteza, sem lembrar nem seguir.

Ao redor, um denso silêncio dimensionava a crueldade do ato. Arranjou um passatempo compatível com a inércia. Percebeu um sem número de sombras no quarto: objetos, feixes intrusos pelo vão da persiana de madeira, um ventilador enferrujado, a cômoda abarrotada de peças, a penteadeira translúcida: matérias-primas incríveis para projetar formas obscuras por todas as partes. Viu graça em analisar os contornos estranhos de existências com data de validade, uma vez que teria, sabe-se lá quando, de levantar. Todavia, enquanto o tranco das obrigações não lhe impulsionava para fora dali, brincou. Deixou aberto apenas um dos olhos e, com o indicador da mão direita, esculpiu uma das sombras eleitas. Era nuvem, depois um corpo de uma senhora baixa e gorda para, mais tarde, converter-se em um rosto quadrado de homem. Sorriu.

Sem menção de erguer o tronco, espreguiçou e logo sentiu uma ausência pontiaguda na profundidade da inspiração. Vulnerável, apertou os olhos para perceber um filete tênue entre a libertação e o cárcere. Não poderia haver inimigo mais cruel que a própria imaginação. Mesmo em vigília, um pesadelo espesso sobrepunha-se à realidade para distorcer cores, cantos, cômodos, tudo à volta. À materialidade das coisas, misturava-se uma recriação espiralada de belas histórias jamais ocorridas. Não se via capaz, entretanto, de deter o fluxo de loucura que já invadia suas comportas no simples anunciar da manhã. Seu cérebro, de forma aparentemente irreversível, estava embebido e submerso em um sem-número de reminiscências repetidas e fragmentadas. Presa ao mundo.

A mochila puída de José, de tão carcomida, parecia malhada se observada de longe, alternando pontos mais e menos escuros de um cinza poluído pela cidade. Na ânsia de partir, acumulou todos os pertences apenas no maior dos dois compartimentos. A pressa para deixar o lugar fez com que aglutinasse as coisas feito um balaio de misturas: dois livros, uma escova de dentes esgarçada, uma foto 3×4 que não era sua, um pacote de biscoitos e bolos de roupas.
Sentia o corpo inteiro ressecado. Ato contínuo, foi à cozinha e pegou o primeiro copo americano que viu para, em seguida, decepcionar-se com a falta d’água. Não muito afeito a contrariedades, percebeu os músculos do braço retesarem-se para arremessar o objeto na parede oposta, mas fora vencido por um repentino e imenso cansaço que lhe causou um instantâneo nocaute: tudo havia começado justamente por conta daquilo. A água, sua escassez e a complexidade do simples ato do querer sem poder.

Ele e Susana não fizeram questão de cumprimentarem-se na primeira vez. Eram amigos em comum cindidos por uma calorosa discussão a respeito do governador. Das sete pessoas, quatro eram veementes contra suas atitudes. Outros dois pareciam alheios e havia dois extremistas – justo ambos.
Inflamados e já sem lembrar os nomes um do outro, queriam somente devorar o ponto de vista contrário. Enumeravam causas, ouviam o argumento alheio feito linces sedentos por proferir a resposta. Os olhos dela eram enormes, verdes, ainda mais coloridos pelos arroubos de opinião que, não raro, lhe tomavam. As garrafas carameladas de cerveja acumulavam-se na mesa de lata a tal ponto que já havia algumas logo abaixo, na calçada.

Vomitaram mutuamente autores e outras referências até não suportarem mais. Suas vozes, as mais altas da rua atrás da igreja e os botecos vizinhos já espantavam as pessoas para não serem pegos pela lei do silêncio. Não tardou até os garçons repetirem o pedido e o eco produzido pelo fervoroso debate deu lugar a uma imensa orfandade. Todos se despediram. Alguns juntos, outros correndo para o primeiro táxi à espreita enquanto José e Susana viram-se sozinhos.
Vestido florido, pano com um laço no cabelo, batom vermelho, óculos de aros grandes e armação num bege quase branco, mechas em diferentes tons de loiro, estatura média, ombros não mais largos que o quadril, magra, braços que findavam em dedos longos, cujo esmalte negro contrastava com o florir dos sapatos de bico arredondado. Bailarina.

Camisa branca de mangas curtas com pequenas bicicletas estampadas em amarelo, azul, verde e vermelho. Bermuda lavada de jeans, tênis pretos, meias marrons esticadas canela acima, barba por fazer e cuidar, cabelos recém-raspados: culpa do pai. Sociólogo.

– Vai embora como? – ela perguntou enquanto acendia o quinto cigarro da noite.
– Táxi.
– Pegamos pesado…
– Não se preocupe. As pessoas morrem de medo disso.
– De discutir?
– Também. O pior, mesmo, é enfrentar seus olhos.
– Piegas. Para onde vai?

Ela morava na fronteira Praça da Árvore/Saúde, com ruas que não se encontram e topografia imprevisível após a próxima esquina. Pediram um carro preto no aplicativo, modernidade pouco frequente no repertório de José. Nem poderia fazer isso, dado o estilhaço pós-moderno encravado na tela do telefone celular. Sentados nas extremidades do banco de trás, planejaram lidar com a timidez em silêncio até chegarem ao bairro em que moravam. Ela desembarcaria antes e, ao pedir que o motorista encostasse no meio-fio, olhou para o oponente.

O elevador de madeira rangia à medida que escalava os andares. O espelho, manchado de bolor em algumas partes, refletia um beijo ensandecido, espalmado no desespero de mãos que tateavam nas carnes compartidas o uníssono de um porvir imaterial e que nunca chegaria. A fricção, os relevos, os breves sufocares, as unhas, a porta que bateu contra a parede, a falta de cerimônia para se renderem à cama desarrumada, o perfume dos vinis desarrumados, as visões furtivas do teto, o embate indizível das raivas, a política intensa fundida em arguições selvagens, o amplo e quase infinito suspirar pleno do delírio simultâneo, sucedido por uma separação alongada, vencida.

Susana rapidamente adormeceu, cansada da semana de ensaios incessantes para o espetáculo que em breve a tiraria do continente por dois meses. Paralela ao colchão, abandonou um dos braços ao lado do corpo, enquanto o outro apegava-se a uma das várias almofadas coloridas em que se refugiava. José mergulhou em insônia e passou a perambular pelos corredores do apartamento de pé-direito alto. Visitou o banheiro, explorou os armários da cozinha, roubou parte de um tablete de chocolate, contemplou a cidade na varanda repleta de plantas espinhosas e achou morada no grande sofá de couro que namorava a estante de livros.

Já acomodado, ele fixava o olhar no único quadro pregado há anos naquela sala. Era um retrato de Robert Frank no qual uma criança nova-iorquina corria atrás da mãe em uma calçada vazia de domingo. Observou o quarto e atentou à própria exaustão. Não havia mais argumentos, contradições, quereres, nada. Um mosaico espalhava-se no chão de tacos. Via-se sem energia para encontrar sentido em um ou todos os pedaços. Estava destituído da própria existência, por tanto tempo – quanto? – devotada à corda recém-arrebentada.

Recordava apenas a primeira noite ao atolar a mochila destroçada com fragmentos de um passado aturdido por um ruído agudo de desvario. Com a maçã pela metade, bateu a porta. Susana despertou, assustada. E percebeu que, anos depois, suas inseparáveis companhias voltariam a lhe bulir nas manhãs: sombras.
Sobrou uma carta, caída da mochila, à beira da porta: nunca aberta.

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Sobre Rodolfo Araújo

Jornalista, amante do teatro, um (des)crente (in)constante.
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