café

Estive distante por algum tempo, mas não há sinal de reforma ou mudança que se faça notar. O ar soa pesado, como sinto em dias de inverno. Embora a calefação seja um luxo neste país, é inevitável relaxar na cadeira. Culpo-me entre um espasmo e outro de pensamento quando vejo a correria dos pedestres para escapar das rajadas de vento.
Cheguei cedo demais para nosso encontro. Quando perdemos um hábito, nada melhor que demonstrar algum esforço para recuperá-lo dignamente. O metrô estava abarrotado, todos cabisbaixos como se estivessem condenados a um destino pior que no dia anterior – previsível numa segunda-feira. Prefiro esperar o rebanho se dissipar antes de arriscar deslocamentos pela cidade.
O turno dos garçons estava no início. Assim que procurei minha mesa de sempre, logo observei Maria saindo por trás do balcão para me saudar. Mal tive tempo de me acomodar e reergui o corpo para abraçá-la. Perguntou como estava, falou sobre o tempo e generalidades típicas de quando nada se tem a dizer. Pedi um café, um pão de queijo e um jornal.
Há quantos meses não pegava em um papel daqueles! Senti minha mão ressecada ao folhear os cadernos enquanto uma ponta de ansiedade começava a flamejar em meu estômago. Pelo menos é ali que me brotam os primeiros sintomas.
As letras formavam apenas um borrão. Pouco importavam a tragédia econômica, as barragens rompidas, as brincadeiras parlamentares, a má fase do time ou o último espetáculo de teatro. Havia uma mistura naqueles papeis. Um mundo decodificado em letras incompreensíveis. Os vidros embaçados não me permitiam mais o deleite a partir da loucura dos que estavam do lado de fora. A única alternativa era contemplar as coisas de dentro. Bugigangas, o mobiliário anos 80, os aventais puídos dos atendentes, a complacência deles comigo, o cheiro de café, o ruído de chocalho que fazia com o pacote de adoçante. Era tudo pequeno, despedaçado, mosaico.
Pensei em esperar para comer o pão de queijo, pois seria falta de cortesia recebê-la já alimentado. Sempre fiz questão de demonstrar algum tipo de cuidado diante dela, mas não consegui manter a regra. Virei o café – sem açúcar, claro – e, em três mordidas, o salgado também deixara de existir. Não havia mais distrações.
Tirei do bolso interno do paletó a carta. Reli. Depois de grandes ausências, dificilmente um telefonema ou mesmo um encontro presencial dá conta das inúmeras ideias que usualmente passam pela cabeça, sobretudo a minha. Não havia nada a acrescentar, apesar das rasuras. O papel amarrotado não transmitia elegância, mas eu aparentava estar melhor, mais magro e confiante. O plano era ler em ritmo lento, para que nenhuma frase perdesse o sentido ou passasse despercebida. Sabia, de antemão, qual o parágrafo ideal para estender a mão e experimentar aquele calor pelo qual ansiava tanto. Observaria seu rosto, faria meu canto de boca sorrir, relembraria episódios, refaria todos os prédios, viagens, delírios, despertares, transas, livros, pratos e músicas.
Se o jornal não fosse de tantos meses atrás.
Se ela viesse me ver.

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Sobre Rodolfo Araújo

Jornalista, amante do teatro, um (des)crente (in)constante.
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