depois do meio-dia

eram sabores belgas que trafegavam língua abaixo revolvendo em maremotos de trigo e frutas – aparentemente na tentativa de mimetizar a tempestade áspera do lado de fora. ler em silêncio configura-se como outra bênção em lugares nova-iorquinos como aquele. o idioma inaudível tornava-se ruído enquanto a espera virou suspensão. era difícil compreender as frases mais básicas daquela leitura. sentia apenas a cerveja, os murmúrios e o tempo. uma cadeira vazia, à minha frente, magnetizava a atenção: como seria, naquelas condições? e se aparecesse, repentina? teria um guarda-chuva? de que cor estariam seus cabelos? quão distante aquele corpo estava da escultura psicológica que, com tamanho cuidado, esculpi? envelhecera? haveria uma gravidade imperceptível no olhar?

repentina, quebrou a bolha dos extensos minutos e entrou. a voz – era dela que mais lembrava, assim como o fervor cortante das íris. nestes momentos, é bom que se diga, é necessário atuar. controlar os sentidos para que não digam, de pronto, absolutamente nada sobre o fascínio daquela materialização. contrair os músculos das mãos, de maneira que não escrevam um poema no mais imediato impulso. escutar vozes interiores que recomendem parcimônia para não desejar, desesperadamente, a boca delicada, certeira, seletiva nas palavras e perfumes. entender que a clara pele do destino está ali, logo adiante, mas requer cuidado. refrear os sonhos despertos de dançar ali mesmo, entre as mesas, a trilha de qualquer filme à escolha dela. recitar poemas no menor volume possível, cancelar reuniões, jogar pela janela papeis, telefones, compromissos. curvar-se a sua efemeridade preguiçosa das manhãs. estabelecer um pacto para que se recorde de mim ao menos a cada dois minutos. perder os sentidos durante a longa espera entre fechar o portão e sentar-se como passageira. ebulir, sem amarras, dos pés à cabeça; entrar e sair indiscriminadamente de aviões. Abrir o mundo apenas com sorrisos, ceifando a mata do desconhecido com a lâmina agridoce da ironia. beber toda a vida possível. ser feliz como sobremesa. amar depois do café.

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Sobre Rodolfo Araújo

Jornalista, amante do teatro, um (des)crente (in)constante.
Esse post foi publicado em prosa. Bookmark o link permanente.

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