prelúdio

ele calcula o ritmo dos passos, embora jamais tenha mantido qualquer relação próxima com os números. atrapalha-se um tanto com o corpo até alinhar a velocidade das pernas, a firmeza dos pés e a postura do tronco. é noite: olha para frente, em riste, decidido, recheado por uma convicção preocupante – dizem os mais versados que qualquer realidade pode ser caracterizada como líquida, esquálida, espumante, flutuante, entre outras efemeridades. não importa, parece desejar. vestido para o trabalho, arrancaria aqueles tecidos para flanar melhor. há mais sangue em toda aquela circulação. um vermelho circula ardente pelas veias azuis, ruboriza o rosto, goteja pequenos suores nas palmas das mãos. ofegante, como se pudesse pressentir, de um jeito misturado, todas as sensações que emergiriam ordenadamente horas depois. sabe pouco sobre o porvir, mas caminha, rápido. aguça até as vistas viciadas. repara em lojas não percebidas, atenta para senhoras-velhas-conhecidas, cumprimenta desapercebidos ao longo do trajeto. vive.

dobra a esquina. vislumbra, ao fim de mais cem passos, o encerrar do seu périplo. desacostumou-se a estes fervores. acelerou o tempo com desatinos, papeladas, tabelas, espécimes todos de pouquíssimo apreço a sua natureza de nervuras, sabores. as calçadas eram paredes que mostravam precisamente o fim. a luz.

a falta de pontualidade habitual contribuiu para a surpresa. o conforto da ansiosa espera era, agora, um corredor da morte. não havia retroceder. avançar a favor do caminho: a ordem. louco de sede, faminto pelo perfume tão imaginado, cioso por se reapresentar: despido. não conseguia – nem poderia – parar. rumava. 

ela já estava ali, desenhada. o primeiro copo de cerveja virava-se contra a boca sorridente, talvez pela possibilidade ou apenas pelas piadas dos velhacos do outro lado do balcão. os azulejos contavam histórias dos anos 50, ou antes. choravam algumas gotas de desgaste, ferrugem e pintavam o semblante acolhedor do boteco. panos eram passados regularmente sobre o balcão, onde suava uma garrafa solitária, amarela. o cabelo comprido, ofuscante, descia sabiamente, atraído pelas curvas mais contemporâneas daquele corpo. combinava, feito obra, com a pele embranquecida pela cidade. os tecidos soltos, provavelmente rasgados em talho autoral, cobriam em assimetria os relevos. delírio encarnado. cerveja, geladíssima, leve corredeira a se esconder no aquário em que uma língua dançante esperava palavras e amores. os dedos esticados apenas esperavam, sem planejar. dava as costas para a sentença.

foi quando ele chegou.

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Sobre Rodolfo Araújo

Jornalista, amante do teatro, um (des)crente (in)constante.
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