da idade e de quem passa

É como se o tempo houvesse, no virar de um dos últimos dias – não sei ao certo -, dobrado. Preso à face de baixo, conformo-me com a quase-impossibilidade de ler a face da folha da qual fui apartado. Pária do próprio passado, restrinjo-me a vislumbrar, com natural receio, um horizonte nítido.

As mãos ainda parecem preservadas, enquanto o rosto soa levemente vincado. Para meu orgulho, algumas espinhas ainda aparecem, um pretexto para alimentar o vício em chocolate. Deixo, progressivamente, de ter um peso para sê-lo. Movimento ainda discrete, mas perceptível a quem já esteve do outro lado da folha.

A habilidade para manusear, correr, testar os reflexos também se esvai feito tinta molhada. Reminiscências borradas, fatos misturados no liquidificador da memória, cujo próprio nome já não honra com a mesma vivacidade. A miopia torna o futuro um tanto impressionista, corroi a visão do todo, prende-me à gaiola das partes.

Ela passa à esquerda, sempre será jovem para mim. Dessas peles que rivalizam com os pêssegos mais tenros, caminha com decisão das mais experientes. Olhos apertados, desenha sorrisos invariavelmente irônicos. Provoca torcicolos, raramente ocupa os bares com a luminiscência de quem, talvez, seja tão vazia de perto. Miopia.

Parece escapar dos magnetismos provocados pelo desdobrar dos seus movimentos. Faz de passarela o corredor puído, amadeira o carpete surrado, aplaina sem esforço o passeio em ruínas.

Costuma sempre aparecer. Está por perto, é fato. Um enigma, de tão jovem, incompreensível. Ciente de todos os males do mundo, escorrega, frase ou outra, na inocência que brota pelos poros ainda imaculados, talvez poucos.

Meus ouvidos respondem devagar. A boca pronuncia articulações desconexas, como num dialeto que já não se pode compreender. Cada vez mais solilóquio. Há um vidro, talvez, entre nós.

Ela toma distância, anda cada vez mais rápido. Eu, preso ao lado de baixo da página, esboço um grito. Talvez me ouça. As minhas bebidas já são diferentes. Os goles esparsos misturam-se a conversas sobre política, a gangorra econômica, a quantidade de sal na receita infinda, os desamores terapêuticos em salas repletas de eco, as roupas que não mais cabem, os sapatos lustrosos, os destinos de viagens impossíveis, o aperto no orçamento. Enquanto isso, ela segue caminhando. Agora, um pouco mais distante.

Abre o farol. Acelero e já é possível vê-la, mais uma vez.

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Sobre Rodolfo Araújo

Jornalista, amante do teatro, um (des)crente (in)constante.
Esse post foi publicado em prosa. Bookmark o link permanente.

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