fenda

em cor alguma encaixa-se
apenas o afogamento, o nó
da gravata meio-certa
dá a partida
no motor,
no automático
no moto-contínuo
deste giro caótico
sob a fumaça densa
dos cigarros escassos
ou ônibus desregulados
dos pares marcados
feito bois

mastiga a mesma comida
rumina os nutrientes
mistura na boca seca
os dissabores
numéricos, planilhados,
colesterois em baixa
vitaminas em alta
exames, fotos, paranoias
frases feitas
a prática costumeira
da anticrença

espelho distorcido de um retrovisor impotente
a buscar os frangalhos do passado
os trejeitos, a voz, as palavras indolentes
a perda acumula-se como as notas
o vazio empilha-se sobre o peito
cortinas cerradas
como pálpebras num bar ruidoso
cercado de sorrisos, prazeres, gemidos
a centrifugar a fenda
onde fiquei.

Anúncios

Sobre Rodolfo Araújo

Jornalista, amante do teatro, um (des)crente (in)constante.
Esse post foi publicado em poesia. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s