Prosa-poesia-desespero*

Todos os domingos são vazios, tão imensos, que são vazios e, como um porre no final do ano, são alegres no durante e terríveis no depois. Centro do círculo da depressão, dia de Sol, família no parque e a minha tosse doente que não me permite sair de casa sair do próprio corpo para num sonho desses tidos em vigília ir tocar o seu rosto. Onde está o seu rosto, não visto há uma semana, tão longos dias, sete dias de lamúria, lamento, pego o telefone seis, nove, sete, sete, medo e desligo. O som intermitente da minha covardia, não ligo, digo que amo você somente no sonho, ah, meu amor, quero dizer que é o maior da minha vida, que vejo meus filhinhos juntos com os seus chamando-se doces de irmãos. Os meus com o seu nariz e os seus com os meus olhos, rabiscando tintas cheirosas no papel da escola no dia dos pais ou das mães ou data qualquer que nos faça chorar ao lembrar que o amor é tão lindo.
Ontem, a perdição na fumaça, beijos por todas as partes, os pós adentrando todas as narinas, exceto as minhas, que se mantinham na castidade daquele que acredita no Sol que virá no domingo, o mesmo que falei ali, chorando na sarjeta enquanto você dorme ou beija outra boca. Estou no centro dessa cidade suja, que é a minha mãe e me acolhe com seus enormes braços de concreto quando me torno criança e preciso desabafar. As bocas de lobo são as únicas que me respondem na crueldade da madrugada em que não dormi com ninguém, muito menos beijei uma luz azul que cruzava a festa enquanto uma vodka de segunda tentava tirar da minha cabeça que eu amo você. O mundo gira, dança eletrônico com aquela bossa nova que não sai dos nervos. Voz baixa, um banquinho, um violão bem simples adocicando aquele abraço, ternura infinita que fez você inesquecível e fez-me para você desprezível, apesar de ouvir tanto, mas tanto, que sou maravilhoso.
Eu danço a noite inteira tentando suar e eliminar as toxinas depressivas tarja-preta em que a sua silhueta se transforma. Eu olho para todos os lados e qualquer franjinha já me lembra você, no banco do lado do carro, pegando uma das minhas centenas de balas de hortelã ou qualquer outro sabor de beijo – eu não esqueço o seu beijo, eu só quero o seu beijo – com as luzes da noite fazendo sombra no seu rosto branco ou bronzeado por aqueles cremes que faziam da sua pele ainda mais linda – preciso chorar – perguntando para mim se eu achava bonita e eu falava todo tímido e travado, talvez, que lhe achava a mulher mais linda do mundo e, mesmo depois de ir ao limbo da sua falta continuo a achar, ainda que seja a mais vilã de todas as mulheres que tive e não tive, pois agora não tenho você, mas ainda hei de ter novamente, pois sou o dono dos seus segredos e é dona dos meus, por menos que saiba o quanto fechado fui, sou e não serei.
Há cinco noites que não durmo e mergulho em uma tosse doente intermitente que desperta rumores de que vou morrer, mas eu não posso, eu preciso viver para dizer o que a covardia não me permite que é viajar nestes seus olhos enormes desde menina seus olhos são enormes, quero adentrar o reino de Netuno que carrega em suas íris e dizer, no interior da sua loucura, qual é a imensidão do amor que sinto, sentirei e nunca senti antes por alguém que é luz e deixa-me esperando por um encontro não-marcado. Eu ainda passo em frente ao seu apartamento e deixo flores invisíveis, faço manobras loucas para que me perceba cantando os pneus da saudade rodada por toda a cidade, por todos os luminosos, desde o mau cheiro histórico do centrão até o perfume de jazz, jasmim da zona sul.
Amargura quando estou no alto de um prédio qualquer e lembro daquela torre imensa em que nos abraçamos e eu pensava que ali a vida começava a valer a pena, tenebrosa a idéia de que o melhor dia da minha história passou, como um pássaro, passou. E os dias seguintes nem perto chegam, nem com o dedinho conseguem tocar a felicidade, essa tal que tantos buscam, esse Graal maldito que toquei sem ao menos bebericar.
Se ficamos juntos, por que por pouco tempo, melhor seria que nunca houvesse acontecido, hoje eu sofro solitário, não é justo, rezo para todos os santos, acompanho a folhinha da Igreja louco para que tudo acabe rápido para eu ir até os pés daquela imagem para quem minha mãe me entregou quando nasci e fazer mil preces e promessas chorando sem que saiba pois, fora a saúde para andar e tossir sem me afogar, clamo pelo amor que me escorregou pelos dedos sem que eu fizesse nada.
Sento no parque onde corro por horas e horas vendo as mesmas árvores, ficando desidratado, perdendo quilos e massa sem a mínima vontade de parar, sou máquina ininterrupta que bate bate bate os pés na terra cheia de pedrinhas, sempre aumentando a velocidade contra o relógio a favor do esquecimento, mas quando paro e sento na grama, tenho as velhas miragens da sua franjinha andando por entre os troncos e, de repente, eu grito em busca de você, mas quando viram o rosto, nada dos seus olhos imensos como a Lua que, ontem, ouvia as minhas confissões e lamentava aquele show que nunca mais acontecera.
Será que você guarda as minhas cartas, lembra de mim nas músicas, enforca as memórias na gravata dourada que perdi propositadamente na sua bolsa para que nunca perdêssemos o elo por mais longe que estivesse? Sentado na janela em que trocávamos estalinhos escondidos, elucubro todas as hipóteses imagináveis na concretude que me arde no peito, indesejável sentimento para o pior inimigo, hipóteses, se se se, só esta palavra, maldito condicional, repugnante covardia. O que custa ligar, ou chamar pelo interfone: “eu amo você”. Dificuldade do reles mortal, que tanto escreve, destila, desfila o sentimento sangrando a cada linha, num silêncio de túmulo, letras que morrem quando batem no papel e ressuscitam quando você lê e chora, pensando no alemão que sou eu, um moreno baixo esguio e poeta que, de Roma, conta a história da vida.
Suas roupas coloridas são o retalho do meu passado, fatos que me perseguem quando espio uma qualquer garota troco frases e chego à mesma conclusão, a terrível constatação que me dói em todos os momentos que salto nos abismos à procura de apagar aquilo que não consigo. Ninguém é você, meu amor.
E não pense que sou doente, sou palavra, sou poesia, sou a rima, a flor, aquele frio na barriga que você diz não explicar, sou a olhadela escondida, o rabo-de-olho em que nos orgulhamos de ser profissionais, sou a lembrança de quando você saía do trabalho para o metrô e a minha gravata esvoaçante corria em sua direção para dizer adeus ou então esperar o ônibus desejando uma boa aula.
Domingo de Sol, lá vem toda a família paparicando, são todos lindos, o mundo é maravilhoso, aquele mar de que tenho saudade na terra de Floriano, em que os olhos azuis são commodities e eu era mais um turista latinoamericano estrangeiro no meu próprio país. Estrangeiro sim, pois estava no exílio da sua presença, longe das fronteiras, aquelas duas quase brancas, descoloridas romanticamente, bordas doces chamadas lábios. Tão longe, tão perto, quero abraçar você, dizer que sou seu filho, irmão, incentivador, bobo-da-corte, motorista, passageiro, tudo o que for possível para ter momentos e torres e noites e alexanders nas veias dos dois ebulindo de paixão e entregando o destino, destituindo do seu peito a confusão, saiba que sinto, que sou covarde, mas escrevo, mesmo que nunca leia isso, eu escrevo e digo que amo você neste domingo de Sol em que a última coisa que deveria fazer era lembrar de você e escrever que lhe amo.

*Janeiro de 2004

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Sobre Rodolfo Araújo

Jornalista, amante do teatro, um (des)crente (in)constante.
Esse post foi publicado em misturas, prosa. Bookmark o link permanente.

5 respostas para Prosa-poesia-desespero*

  1. Nossa! Que lindo! Triste também. (…) terrível constatação que me dói em todos os momentos que salto nos abismos à procura de apagar aquilo que não consigo. Ninguém é você, meu amor. Tenho feito muito isso.

    • Rodolfo Araújo disse:

      Esse foi escrito numa torrente de emoções bastante intensa. Estamos sempre à procura, não é mesmo?

      • Verdade. A procura é fascinante. Sabe, ás vezes, tenho impressão que encontrei o que procurava. Mas, isso é algo que sinto e que vai de encontro a toda lógica. E eu não tive coragem de ir confirmar se era real ou apenas fantasia minha. Há uma guerra dentro de mim, meu lado racional não se concilia com o emocional. E eu prefiro correr…pular de abismos…na esperança que o tempo resolva isso sozinho. O problema é o que tempo é lento.

      • Rodolfo Araújo disse:

        Eu recomendo que aproveite os abismos.

  2. Rodolfo Araújo disse:

    Eu recomendo que aproveite os abismos.

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