cárcere, privado

tapete feito para ocultar
problemas

metacriminalidade

fratura exposta no choque
de foices e colarinhos

gatunos sociais, soltos
ladrões de galinha, em gaiolas

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istambul

nas mesquitas, um grito
repetido, rivaliza
com o ruído da multidão
que aflora
das tuas entranhas,
também de fora
sedentos todos
pelo caos

tecido de cimento,
as vias embolam o tráfego
dos afetos e mercadorias
fluxo de excessos:
melancolia

a umidade dos banhos
evapora o cárcere vizinho
de seres empoeirados,
estátuas vivas
mortes ambulantes
terror

és a soma de tantos hiatos,
do Bósforo às fronteiras
que antecipas
no agridoce das tuas águas
revolvidas no choque
de hemisférios

vielas que cheiram
a carne queimada:
delícia e pena.

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amsterdã

que serão de meus olhos,
tão altas as mulheres
destes países baixos?

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sagitário

seu duplo, múltiplo:
o arco, estendido,
prepara o golpe certeiro

dia-noite
começo-fim
coragem-pavor
claro-escuro
nada-tudo:

o espanto
de despertar
e saber
que teu dorso
é casa.

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voo

azul
a soma de todas
as suas cores.

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paraíba

 

sua areia semeou meu sangue
na aridez pálida, infértil
dos longos dias

arava os grãos secos
com os longos dedos
que herdo

e    s    t    i    c    o
à procura do pão.

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amanhã

acorda, pele
elástica coreografia
de espanto
pelo dia
a recobrir, em retos feixes,
o corpo

o assombro do tempo
que molda o vazio,
rabisca o porvir,
cai com todo o peso
a tatuar sinuosas interrogações
nos poros que indagam:
e agora?

agasalha-se com a fumaça do cigarro,
traga uma réstia de gole perfumado
com a boca fugidia, amortecida
pelos brados da distante noite:
história

sente o ardor do sangue no ângulo de
cada contorno:
percebeu-se esculpida horas antes
refeita e entregue à escassez de palavras
lago esplêndido de dentes, peixes, dedos, promessas
memória

suas cores não mais lhe pertencem;
viu-se recoberta indelevelmente
pelo rastro do outro
a ausência imposta em sentença
para se refazer desejo
possível
passível
plausível

o sabor da carne
explode
na falta.

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